Os Mundos de Mahler (Parte 4)

20/04/2010 às 10:08

Palestra de Jorge de Almeida

mundosdemahler_parte4O Música na Cabeça, parceria da Osesp com o jornal O Estado de S. Paulo, disponibiliza aqui a quarta parte do áudio de sua primeira palestra, apresentada pelo Professor Jorge de Almeida.

Além da apresentação, os palestrantes produzem um ensaio sobre o mesmo tema. Leia um trecho abaixo:

Discutir a atualidade de Mahler é sempre um problema, pois ele se julgava, como Nietzsche, um extemporâneo, um “contemporâneo do futuro” (título de uma de suas melhores biografias). Em cartas aos amigos, abalado pela péssima recepção de suas obras, ele frequentemente dizia: “meu tempo ainda virá”. O tempo que Mahler esperava chegou apenas na década de 1960, principalmente após os eventos de comemoração de seu centenário de nascimento. Novos maestros, também compositores, como Leonard Bernstein e Pierre Boulez, comandaram esse “renascimento”, que foi acompanhado pela publicação de obras-primas da crítica musical, como a “fisiognomonia” de Theodor Adorno e o monumental estudo de Henry-Louis de La Grange.

Em nosso mundo ambiguamente caótico, os violentos e irônicos “mundos” de Mahler ainda podem soar como um corajoso desafio. Suas sinfonias incomodam, precisam incomodar, pois, como disse Adorno, “a música de Mahler é crítica, é uma crítica à aparência estética, e também à cultura na qual esta se move”. Ouvir sua música aqui na Sala São Paulo, nos dois próximos anos, é um convite para abrir os ouvidos a essa crítica, enfrentar os ruídos da cidade que nos cerca, repensar as contradições e crises que nos unem ao outro lado da rua, para além das belas melodias. Só assim os mundos de Mahler terão algum sentido, e sua música alguma esperança.

Leia aqui o ensaio completo de Jorge de Almeida.

Os Mundos de Mahler (Parte 3)

20/04/2010 às 10:06

Palestra de Jorge de Almeida

mundosdemahler_parte3

Gustav e Alma Mahler num passeio por Dubbiaco (Itália), durante o verão de 1909

O Música na Cabeça, parceria da Osesp com o jornal O Estado de S. Paulo, disponibiliza aqui a terceira parte do áudio de sua primeira palestra, apresentada pelo Professor Jorge de Almeida.

Além da apresentação, os palestrantes produzem um ensaio sobre o mesmo tema. Leia um trecho abaixo:

O “realismo” de Mahler também se manifesta no modo como sua “prosa” recolhe e reordena os materiais do mundo musical. A cada momento somos surpreendidos com a irrupção de bandinhas, fanfarras, valsas, canções populares, hinos e marchas, muitas marchas: triunfais, fúnebres, grotescas, demoníacas, celestiais. Como se antecipasse o procedimento vanguardista da colagem, Mahler aproveita o banal para denunciar a vulgaridade da música utilitária e comercial, e também as expectativas de seu próprio público. Banalidades petrificadas e reconfiguradas nunca aparecem como banais; são, segundo Adorno, “alegorias do rebaixado, humilhado, do socialmente calado”. O resultado, para o ouvinte, é uma constante indefinição entre ironia e violência, que está na base do que Boulez chamou “o gesto mahleriano”.

Leia aqui o ensaio completo de Jorge de Almeida.

Os Mundos de Mahler (Parte 2)

20/04/2010 às 10:04

Palestra de Jorge de Almeida

mundosdemahler_parte2

Caricatura de Mahler regendo a estreia em Viena da Primeira Sinfonia (1900) – Illustrierten Wiener Extrablatt

O Música na Cabeça, parceria da Osesp com o jornal O Estado de S. Paulo, disponibiliza a segunda parte do áudio de sua primeira palestra, apresentada pelo Porfessor Jorge de Almeida.

Além da apresentação, os palestrantes produzem um ensaio sobre o mesmo tema. Leia um trecho abaixo:

Mahler percebeu que, se a própria forma da sinfonia estava em questão, nada melhor do que redefinir seus pressupostos, superando a fratura romântica entre a intenção subjetiva e a objetividade do mundo: “O termo ‘sinfonia’ significa para mim: com todos os meios técnicos à minha disposição, gerar um mundo”. Essa frase, ecoando em várias de suas cartas e conversas, ajuda a compreender aquela “abundância” que, segundo Pierre Boulez, seria a principal característica da obra de Mahler. Ela foge do meio-termo como foge da mediocridade, e em seus extremos ousados percebemos a real dimensão da crise moderna, que adquire uma feição trágica justamente porque tem consciência de não poder mais ser resolvida, como em Beethoven, por um ato de heroísmo.

Leia aqui o ensaio completo de Jorge de Almeida.

Os Mundos de Mahler (Parte 1)

20/04/2010 às 10:02

Palestra de Jorge de Almeida

Gustav Mahler

Gustav Mahler

O Música na Cabeça, parceria da Osesp com o jornal O Estado de S. Paulo, disponibiliza aqui a primeira parte do áudio de sua primeira palestra, apresentada por Jorge de Almeida, doutor em filosofia e professor de teoria literária e literatura comparada na USP. O projeto inclui ainda encontros com artistas e debates sobre música, em um contexto cultural mais amplo.

Além da apresentação, os palestrantes produzem um ensaio sobre o mesmo tema. Leia um trecho abaixo:

Uma das mais conhecidas canções de Gustav Mahler, sobre poema de Friedrich Rückert, traz o sugestivo título “Estou Perdido Para o Mundo”. A ambiguidade desse verso, de difícil tradução, ecoa em longas e sinuosas melodias que, num tom de comedido desespero, conduzem o lamento: “Nada teria a reclamar/ se o mundo me desse por morto/ Nada teria a retrucar/ pois de fato estou morto para o mundo”. Na estrofe final, momento em que o ascetismo romântico de Rückert vislumbra uma possível redenção pela arte — “Vivo só em meu céu/ em meu amor, em minha canção!” — o espírito trágico da música de Mahler, numa melancólica coda orquestral, parece contradizer o ponto de exclamação que encerra o poema. As vozes se dispersam, as notas se alongam em direção ao silêncio, o mundo se distancia e o eu se cala, quando deveria gritar.

Encontramos em toda a obra de Mahler esse gesto inesperado, que nega as supostas intenções de formas e temas tradicionais, criando através da música um outro sentido, muitas vezes paradoxal. Motivos desgastados do Romantismo (natureza, amor, solidão, povo, guerra, Deus, diabo, êxtase, vontade) são levados ao limite, abalados pelo trauma de nascimento da modernidade e recuperados sob uma nova perspectiva, que oscila entre a ironia e a violência. Isso ajuda a explicar por que seus contemporâneos consideravam sua música “disforme”, “grotesca”, “vulgar” e “agressiva”. Eles não estavam errados. Diante da enorme crise que marca o início de nossa “era de extremos”, suas sinfonias propõem uma solução igualmente grandiosa (e o adjetivo, como lembra Schoenberg, jamais é exagerado quando o assunto é Mahler): “a sinfonia deve ser um mundo, deve abranger tudo”.

Leia aqui o ensaio completo de Jorge de Almeida.

Arthur Nestrovski fala sobre os Projetos da Osesp para 2010

24/03/2010 às 12:12


Arthur Nestrovski fala sobre a Temporada 2010

02/03/2010 às 9:37


Projetos Osesp

31/12/2009 às 11:05

Conheça os Projetos da Osesp e suas realizações em 2009.

Tango-Batuque

30/12/2009 às 17:30

Luciano Gallet

Victor Hugo Toro regente
Osesp
Gravada em dezembro de 2007 na Sala São Paulo.

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Foto: Elder Buck

Em seu livro inacabado intitulado O Banquete, publicado postumamente em 1978, Mário de Andrade dissecava a situação da música brasileira. O banquete realizava-se na residência de uma dama da sociedade paulista, durante a década de 1940. Um dos convidados era o proeminente compositor Janjão, o qual, dentre outras frases lapidares, afirmava o seguinte: “A música brasileira atravessa um período de descoberta e exploração. Desde 1918 que a música brasileira me preocupa. Data daquela época o meu Tango-batuque, de forma embrionária ainda cheia de influências alheias e de realização deficiente.”

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Xangô

30/12/2009 às 15:30

Heitor Villa-Lobos

Naomi Munakata regente
Coro da Osesp
Gravada em janeiro de 2001.

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Foto: Alexandre Felix

Xangô é um canto-fetiche de macumba escrito em 1919, com texto de autor desconhecido. É uma das Canções Típicas Brasileiras de Villa-Lobos e integra o segundo volume de Canto Orfeônico, coletânea de marchas, canções folclóricas e hinos, publicada em 1950 e destinada à educação musical e à formação cívico-moral. A primeira execução desta obra foi em 1930, em Paris, sob regência de Villa-Lobos.

Nabucco: Vá, Pensiero (Coro dos Escravos Hebreus)

30/12/2009 às 13:30

Giuseppe Verdi

John Neschling regente
Coro da Osesp
Gravada em setembro de 2001 na Sala São Paulo.

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Foto: Alexandre Felix

Os fragorosos aplausos com que o público do Teatro Alla Scala de Milão consagrou, a 9 de março de 1842, o Coro dos Escravos Hebreus durante a estreia da ópera Nabucco asseguraram a seu autor, Giuseppe Verdi (1813-1901), um lugar definitivo no panteão dos grandes compositores italianos. Com muitas liberdades históricas, o argumento de Nabucco fala dos judeus arrastados em cativeiro para a Babilônia sob o jugo de Nabucodonosor. Quando o coro lançou os primeiros acordes daquela melodia tão simples quanto sublime, cantando as palavras Va pensiero sull’ali dorate (Vai pensamento, sobre asas douradas), uma espécie de fagulha espiritual percorreu a plateia.

A Itália atravessava um momento histórico crucial. Não existia ainda como nação, era fragmentada em vários estados. A Lombardia, região da qual Milão era a capital, encontrava-se sob a férrea dominação do Império Austríaco. O anseio popular pela libertação, que logo mais se refletiria nas árduas batalhas do risorgimento, o movimento pela unificação italiana, era forte e genuíno. O público que lotava a sala do velho teatro naquela noite mágica identificou imediatamente os sofrimentos dos judeus, cuja pátria fora invadida e dominada pelos babilônios, com a humilhação que os milaneses eram obrigados a padecer sob os austríacos. A partir desta metáfora, Va Pensiero tornou-se o símbolo musical do risorgimento e é, ainda hoje, o hino da liberdade de todos os povos.


Trecho inicial do ensaio A Presença Judaica na Ópera, publicado no livro Contos de Óperas e Cantos, de Sergio Casoy (Editora ALGOL, 2009), gentilmente cedido pelo autor.

Os Mestres Cantores de Nürnberg: abertura

30/12/2009 às 11:17

Richard Wagner

John Neschling regente
Osesp
Gravada no concerto ao ar livre de Fortaleza, durante a Turnê Brasil 2008.

Parque do Cocó - FortalezaWagner começou a conceber Os Mestres Cantores de Nürnberg em 1845, como um apêndice cômico a Tannhäuser. A inspiração era o teatro grego, no qual uma peça satírica seguia-se a uma tragédia. E foi no verão do mesmo ano, em Marienbad, logo depois de terminar a composição de Tannhäuser, que o compositor começou a esboçar o libreto dos Mestres Cantores. Contudo, a música só o ocupou 16 anos mais tarde: em 1861, em uma viagem de trem entre Veneza e Viena, Wagner iniciou a composição do Prelúdio da ópera em três atos, que só viria a estrear em 1868, em Munique.

Ambientada em Nürnberg, em meados do século XVI, a ópera narra a luta do jovem cavaleiro Walther von Stolzing para ganhar a mão de Eva, sua amada, em um concurso de canto, com o apoio do sapateiro Hans Sachs e a oposição de Sixtus Beckmesser, personagem que representa o apego às regras estéticas do passado e que é empregado pelo compositor para satirizar o principal crítico musical antiwagneriano do século XIX, Eduard Hanslick.

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Serenata Nº 11 em mi bemol maior, KV 375

29/12/2009 às 16:30

Wolfgang Amadeus Mozart

Arcádio Minczuk oboé
Israel Silas Muniz oboé
Sérgio Burgani clarinete
Daniel Rosas clarinete
José Arion Liñarez fagote
Francisco Formiga fagote
Dante Yenque trompa
Luciano Pereira do Amaral trompa
Gravada em março de 2006 na Sala São Paulo.

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foto: André Conti

A serenata tomou forma no século XVI, como uma canção interpretada por um amante à janela de sua amada; evoluiu, na Salzburg do século XVIII, para uma forma de música ao ar livre, reunindo instrumentos que poderiam ser tocados enquanto se caminhava. Leopold, o pai de Mozart, e Michael, irmão de Joseph Haydn, foram alguns dos compositores que escreveram muitas serenatas em Salzburg. Mozart mesmo, quando se mudou para Viena em 1781, adaptou várias de suas serenatas —que apresentavam cinco e até mais movimentos de danças entremeados com movimentos convencionais como allegro e adagio—, transformando-as em sinfonias.

Esta Serenata KV 375 para instrumentos de sopro surgiu como sexteto em outubro de 1781, com pares de clarinetes, fagotes e trompas; e em julho do ano seguinte como octeto, com o acréscimo de dois oboés. Só que desta vez Mozart levou o gênero a sério, como confessa numa carta ao pai: “Já estava tirando a roupa para deitar quando fui surpreendido com um grupo de músicos em minha janela tocando uma de minhas serenatas. Como ela foi escrita para mostrar à senhora Van Strack como são as minhas composições, eu a escrevi com intenção um pouco mais séria”. Ele não a chamou de Nachtmusik, ou música noturna, em 1781, mas quando acrescentou os oboés usou a expressão.

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