Luciano Gallet
Victor Hugo Toro regente
Osesp
Gravada em dezembro de 2007 na Sala São Paulo.

Foto: Elder Buck
Em seu livro inacabado intitulado O Banquete, publicado postumamente em 1978, Mário de Andrade dissecava a situação da música brasileira. O banquete realizava-se na residência de uma dama da sociedade paulista, durante a década de 1940. Um dos convidados era o proeminente compositor Janjão, o qual, dentre outras frases lapidares, afirmava o seguinte: “A música brasileira atravessa um período de descoberta e exploração. Desde 1918 que a música brasileira me preocupa. Data daquela época o meu Tango-batuque, de forma embrionária ainda cheia de influências alheias e de realização deficiente.”
Sem sombra de dúvida, o Janjão deste encontro culinário-filosófico é o compositor carioca Luciano Gallet (1893-1931). Falecido precocemente, Gallet deixou uma obra significativa que só agora está sendo redescoberta, graças, entre outros, à iniciativa da Osesp em editar e executar suas peças para orquestra e música de câmara. Mário de Andrade foi durante muitos anos o mentor musical de Luciano Gallet. A relação que se estabeleceu entre ambos tornou possível a realização de um projeto estético na música brasileira, talvez o mais significativo que tivemos. As idéias nacionalistas de Mário de Andrade ressoaram amplamente na obra de Gallet e orientaram também sua postura social e pedagógica: Gallet foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Música e diretor do Instituto Nacional de Música.
Em 1918, ao compor o Tango-batuque, Luciano Gallet ainda não havia se lançado ao projeto nacionalista. Diferentes influências estéticas conviviam lado a lado nesta sua obra inicial, heterogênea tanto no uso de materiais quanto na organização dos processos formais. O Tango-batuque apresenta elementos harmônicos e coloridos típicos do impressionismo francês e da música ibérica. Por outro lado, despontam aqui os germes da estética nacionalista, que seria sistematizada posteriormente, sob a tutela de Mário de Andrade. Por exemplo: a escrita para percussão (caixa, chocalhos, prato e bumbo), a rítmica e a melodia sincopada que remete à música dos salões cariocas do início do século XX. Obra breve, o Tango-batuque é a primeira incursão de um jovem compositor de 25 anos no mundo sinfônico. Evocando novamente O Banquete de Mário de Andrade, podemos dizer que a obra é um aperitivo, deixando transparecer a originalidade do pensamento musical deste importantíssimo compositor brasileiro.
Paulo C. Chagas é compositor e professor de composição na Universidade da Califórnia, Riverside (EUA). Em 2004, a Osesp estreou a sua obra Radiância.





(6 votos, média: 3,83 de 5)
