Salmo 24

29/12/2009 às 10:42

Lili Boulanger

Naomi Munakata regente
Coro da Osesp
Gravada em novembro de 2006 na Sala São Paulo.

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Naomi Munakata e o Coro da Osesp (Foto: Ana Fuccia)

O Prêmio de Roma (Prix de Rome), que existe até hoje na França, é uma instituição de grande prestígio para os artistas. No passado, depois de um concurso muito severo, jovens estudantes em artes recebiam uma bolsa para passar longo tempo hospedados e estudando na Villa Medicis, Academia da França em Roma. Era a consagração de um talento excepcional. Na música, Berlioz e Debussy o obtiveram. Em 1913, o concurso era vencido pela primeira vez por mulher: a compositora Lili Boulanger. Ela nascera numa família de músicos. Tinha uma irmã, Nádia, que se tornaria a mais célebre professora de composição, direção de orquestra e de piano do século XX e que formou, entre outros, Leonard Bernstein, Aaron Copland, Philip Glass, Dinu Lipatti, Astor Piazzolla e o grande brasileiro Almeida Prado. Lili, porém, não fora feita para ensinar.

Como Mozart, ela nascera com a música dentro de si. É Nádia quem conta: “Desde sua mais tenra infância, a música a habita. Canta com dois anos e meio de idade; com seis, passa os dias a decifrar partituras. Fauré vem freqüentemente fazer com que ela leia suas melodias e se maravilha com o dom da criança.” Mas Lili Boulanger tem a saúde muito frágil, adoece com freqüência. Morre em 1918, com 24 anos de idade. A obra que deixou é de uma espantosa maturidade. Sua fragilidade e a consciência da morte que se aproximava levaram-na a uma criação carregada de espiritualidade. Sua irmã evoca: “Ela sabe que de agora em diante seu tempo está contado. Trabalha, trabalha sem descanso, esperando terminar obras começadas… Está plenamente serena, sem revolta, mas não sem melancolia; tem ainda tanto a dizer…” Os temas que a inspiraram são freqüentemente místicos e ela é fascinada pela poesia da voz humana. Voltou-se para a Bíblia e compôs sobre o texto de vários Salmos, dentre os quais o de número 24, escrito em 1916.

Jorge Coli é professor na área de História da Arte e da Cultura da Unicamp — Universidade Estadual de Campinas.

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