Gabriel Fauré
John Neschling regente
Osesp
Gravada em novembro de 2006 na Sala São Paulo.

Foto: Ana Fuccia
Fauré possui hoje a mesma reputação que granjeou em vida: de um discreto gênio musical, capaz de colocar em movimento uma silenciosa revolução que conduziria os músicos franceses à conquista da identidade. Fauré esteve entre os primeiros a valorizar a tradição poética simbolista, que se fixava em seus anos de juventude, e a dar a ela uma feição sonora condizente; lançou seus ouvidos às harmonias wagnerianas, mas passou-as por um filtro que lhes neutralizavam o pathos e o excesso. Associou-as aos materiais arcaizantes da música antiga religiosa, que se tornariam parte das alternativas experimentais e neoclássicas da composição musical do século XX, e acrescentou à sua linguagem, em primeira mão, estranhezas atonais como a escala de tons inteiros, entre outras. Finalmente, ele deixa que tudo transpareça sutilmente sob a moldura de um dos mais elegantes meios de condução melódica de que se tem notícia na história musical. Estes ingredientes deram margem a derivações que marcaram o repertório erudito de forma mais contundente, sobretudo a música de seu amigo e discípulo Maurice Ravel.
A vida de Fauré foi marcada por uma intensa atividade profissional cerceadora de suas habilidades composicionais em projetos de grande envergadura. Sua obra destaca-se, sobretudo, no domínio da canção e do repertório pianístico. A suíte de Pelléas et Melisande, Op.80 é, portanto, uma de suas poucas composições sinfônicas. Foi escrita em 1898, como música incidental para a primeira representação da peça teatral de Maeterlink em versão inglesa, re-orquestrada posteriormente e reduzida a quatro quadros em que se nota a ambigüidade de um estilo que transita entre o passado e o moderno.
Os dois movimentos externos, prélude e molto adagio, são cenas impregnadas pelo espírito romântico. Monotemáticas, invertem a ordem da expressão afetiva. O primeiro movimento anuncia a atmosfera singela do idílio amoroso, conduzida progressivamente ao universo da tragédia; o segundo apresenta uma marcha moderada de expressão fúnebre, para, apenas em seu final, relembrar aquele singelo ponto de partida do drama teatral.
Os movimentos centrais são leves e característicos. No andantino quasi allegretto, Fauré faz fluir uma simples melodia apresentada pelas madeiras sobre os giros virtuosísticos das cordas. Apesar da brevidade, esta cena parece ter feito a primeira platéia se esquecer da representação teatral e se desmanchar em aplausos. Na sicilienne, a delicada melodia transita por uma notável variedade de timbres e é acolhida por um jogo sutil de luminosas distorções harmônicas. Ela busca inspiração na suíte barroca: um recurso neoclássico fartamente utilizado pelos compositores que o sucederam na França.
Fauré cria música de cena nos limites da ambientação de uma representação teatral, um hábito praticamente banido das apresentações atuais. Qualquer indício de complexidade pareceria deslocado e de mau gosto no corpo de um espetáculo totalmente definido por seus aspectos dramáticos. Mas o texto de Maeterlink serviu ainda de inspiração para outras obras do gênero: um ambicioso poema sinfônico de Schoenberg e uma obra mais extensa, a ópera homônima de Debussy, estreada quatro anos depois da suíte de Fauré.
Marcos Branda Lacerda é musicólogo e professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.





