M. Camargo Guarnieri
Wagner Polistchuk regente
Orquestra de Cordas (formação com músicos da Osesp)
Gravada em março de 2009 na Sala São Paulo.

Foto: Desirée Furoni
Em 1943, Guarnieri admirava-se com a importância que o músico tinha nos EUA, comparado a um “médico do espírito”, provedor da “higiene espiritual” e livre das “mesquinhas preocupações de ordem financeira” para se “entregar ao estudo e desenvolver suas faculdades”. Lá, as iniciativas “grandiosas” não vinham do governo, mas de milionários que, “sem medo do inferno”, davam seu dinheiro para a fundação de conservatórios, em vez de comprar indulgências. E não havia cidade que não possuísse uma ou mais orquestras, sempre orgulho da população. Como aconteceu na Europa do século XVIII, quando comerciantes de Leipzig fundaram a Orquestra da Gewandhaus —Orquestra da Casa de Tecidos—, regida por Mendelssohn, Schumann, Brahms e tantos outros. Enfim, a ligação do norte-americano, e antes do europeu, com a tradição da música de concerto é visceral. Se pensarmos que Mozart só se tornou conhecido no Brasil a partir da abertura dos portos de 1808, época em que também se deu início ao ensino médico no Rio de Janeiro e na Bahia (uma vergonha diante da Universidade do México, fundada em 1551…), não dá para comparar com a supérflua relação que temos com este “fenômeno de transplantação” que é a música clássica, nas palavras de Mário de Andrade. Aqui, a “elite musical” ainda é a MPB e uma Orquestra da Casa do Boi de Araçatuba é impensável, apesar de nosso primeiro samba ser sinfônico…
Guarnieri conviveu com Copland, Bernstein, William Schumann e teve momentos gloriosos frente a prestigiadas orquestras norte-americanas. Gilberto Mendes lembra com tristeza não termos documentos gravados de suas entrevistas para TV. Essas miniaturas são originais para piano. O termo Ponteio, fixado por Guarnieri, denomina um jeito brasileiro de preludiar, improvisar, testar o instrumento para chamar a atenção do público, como faz até hoje o tocador sertanejo de viola. Ao todo são dois cadernos de cinquenta peças feitas entre 1931 e 1959. Os ponteios 33 e 46 revelam a tristeza e a melancolia do sertanejo e o 48, a habilidade no manejo da polifonia, sem perder carga emotiva (segundo a pianista Belkiss Carneiro de Mendonça). A Toada triste é uma “suave melodia intensificada pela apojatura” e “expoente de um rubato interno frequentemente encontrado em obras brasileiras” (Francisco Curt Lange); e uma das melhores obras pianísticas de nossa música, segundo Andrade Muricy. Ponteio e Dança são dois movimentos contrastantes: um melódico, à maneira de uma modinha, e outro nordestino, rítmico, com harmonia baseada em terças. A famosa Dança brasileira, de 1928, já é um clássico do repertório nacional, gravado por Bernstein e pela Filarmônica de Nova York, entre outros. É um delicioso tema de notas rebatidas típicas, mas de sabor quase intelectual. Como diria Fructuoso Vianna, “só para quem sabe ouvir” é que se vê ali o toque brasileiro, quase transfigurado em pura e elegante abstração.
Marcos Câmara de Castro é professor de Regência e Canto Coral na USP de Ribeirão Preto (SP).





