Pequena Missa Solene

25/06/2009 às 13:30

Gioacchino Rossini

- Et vitam venturi saeculi

Naomi Munakata regente
Coro da Osesp
Gravada em novembro de 2008 na Sala São Paulo

naomi_munakata

foto: Ana Fuccia

A Petite Messe solennelle teve sua primeira execução pública em 1869 ―após, portanto, a morte de Rossini―, no Théâtre Italien e na versão orquestral que havia sido elaborada pelo compositor nos anos de 1866-67.

O título da obra é enganador, pois a Petite Messe solennelle ―com duração de cerca de 80 minutos!― não é nem petite nem muito solennelle. Poderíamos acrescentar que a obra tampouco é especialmente litúrgica…

Rossini disse que a Petite Messe solennelle foi o seu “derradeiro pecado mortal de velhice”. O manuscrito da obra contém anotações muito interessantes, que revelam a natureza espirituosa e perspicaz do compositor, ao dirigir-se diretamente a Deus:

“Bom Deus. Está concluída esta pobre pequena missa. Será que é mesmo música sacra que eu acabo de fazer ou uma música maldita? Eu nasci para a Opera buffa, tu bem o sabes! Um pouco de conhecimento, um pouco de coração, tudo está lá. Seja abençoado e me conceda o Paraíso.”

Outra divertida anotação de Rossini, alusiva aos 12 cantores que deveriam participar da execução da missa:

“…Bom Deus, perdoa-me pela seguinte comparação: doze são os apóstolos no célebre afresco pintado por Leonardo e conhecido como a última Ceia, quem diria? Entre os teus discípulos, alguns desafinam. Senhor, esteja certo, eu declaro que na minha refeição não haverá nenhum Judas e que os meus cantarão com exatidão e ‘con amore’ os Teus Louvores e esta pequena composição que é, pobre de mim, o último pecado mortal de minha velhice.”.

Encontramos na Petite Messe solennelle grande variedade de expressão: seções muito interiorizadas contrastam com trechos tempestuosos e associados à vitalidade rítmica, que é uma marca característica de Rossini. O ritmo associado a ricas modulações desempenha papel importante no Kyrie inicial, exaltando-se ainda mais no Gloria e no Credo ―no qual ressaltamos a magnífica escrita contrapontística dos trechos Cum sancto spirito e Et vitam venturi saeculi. O admirável solo de tenor Domine Deus remete o ouvinte ao trecho Cujus animam do Stabat Mater, composto em 1842, ao passo que as raízes operísticas rossinianas estão presentes no segmento Quoniam. O movimento O salutaris não fazia parte da Petite Messe solennelle quando esta foi estreada em 1864 e foi provavelmente acrescentado à obra somente em 1866. Trata-se de uma bela ária para soprano, na qual Rossini explora harmonias pouco usuais. O movimento final é um dramático Agnus Dei para contralto ―a tessitura vocal preferida de Rossini― e coro. A voz solista atua em alternância com o coro, que entoa a comovente oração Dona nobis pacem. A obra conclui de modo denso e incisivo.

Esta ‘pequena-grande’ missa é o testamento musical de Rossini. O grande compositor italiano colocou nessa sua obra todo o seu conhecimento, a sua devoção e a sua ousadia.

Richard Osborne, em sua notável biografia de Rossini, afirmou que nesta missa o compositor incluiu elementos extremamente variados, que remetem à música de Palestrina, Bach e Haydn, ao mesmo tempo em que estende o seu olhar para horizontes ainda mais distantes do que Franck, Fauré ou até mesmo Poulenc foram capazes de fazer em suas obras sacras. No entanto, ainda que claramente rossininiana, a partitura está impregnada de uma espiritualidade surpreendente para um compositor que sempre se mostrou pouco religioso e místico.

Amaral Vieira é compositor e pianista.

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