Réquiem

23/04/2009 às 11:53

coro_osesp

foto: João Musa

José Maurício Nunes Garcia

- Introitus
- Kyrie

Cláudio Cruz regente
Osesp
Gravada em outubro de 2004 na Sala São Paulo

José Maurício Nunes Garcia escreveu várias obras fúnebres, entre as quais o Réquiem apresentado neste programa, composto em 1816. Esta obra está ligada às cerimônias em homenagem a D. Maria I, rainha de Portugal, que falecera em 20 de março de 1816, no Rio de Janeiro. Este Réquiem, entretanto, não foi executado nas exéquias oficiais, realizadas na Capela Real, como tradicionalmente se acreditava, e sim na Ordem Terceira do Carmo.

A musicografia mauriciana tem ressaltado o fato de a mãe de José Maurício, a mulata Vitória Maria, ter morrido no mesmo dia que D. Maria I, apontando o fato de o Réquiem, dedicado à rainha, ter sido escrito, ao mesmo tempo, em memória de sua mãe. Segundo o Visconde de Taunay, “o Réquiem foi composto entre lágrimas”.

Esta foi a primeira obra de um compositor brasileiro do período colonial editada em nosso País, em 1897, a cargo do compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920). Essa edição apresenta modificações importantes em relação aos autógrafos. Mas foi de vital importância na divulgação do compositor carioca, tanto no Brasil quanto no exterior. Várias edições, integrais ou parciais, foram feitas a partir dela, inclusive fora do Brasil, e a peça chegou a ser executada em Roma, Bruxelas e Montevidéu, ainda na passagem do século XIX para XX.

Apenas em 1993 a edição de Cleofe Person de Mattos, publicada na Alemanha, restabelece o contato com os autógrafos mauricianos. Apenas duas gravações integrais da obra, a primeira com a Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro, em 1958, e a segunda, mais recente, com o Coro do Morgan State College, registram esse monumento da música brasileira, merecedor de um novo empreendimento fonográfico.

O Réquiem 1816, apresentado neste concerto na edição de Cleofe Person de Mattos, está estruturado em onze seções: Introitus (soli SATB e Coro), Kyrie (Coro), Graduale (soli SATB e Coro), Dies Irae (soli SATB e Coro), Ingemisco (solo Soprano), Inter oves (soli SATB e Coro), Offertorium (solo Baixo e Coro), Sanctus (Coro), Benedictus (soli SAT e Coro), Agnus Dei (Coro) e Communio (Coro).

Muito se tem escrito sobre as semelhanças entre este Réquiem e o de Mozart. É evidente que seções como o Introito, Kyrie, Dies Irae têm motivos claramente derivados da famosa obra do compositor austríaco. Sabe-se que José Maurício dirigiu uma execução do Réquiem de Mozart em 19 de dezembro de 1819, no Rio de Janeiro. É possível que a partitura lhe tenha sido apresentada por Sigismund Neukomm (1778-1858), compositor austríaco, discípulo de Haydn, que chegou ao Rio de Janeiro em abril de 1816, um pouco antes da provável cerimônia onde o Réquiem de José Maurício foi executado. Mas, se há semelhanças motívicas em algumas seções, a maioria delas, da lavra exclusiva do compositor mulato, contém páginas marcantes. O Ingemisco é uma das mais louvadas composições do Padre Mestre, desde suas primeiras audições modernas, a partir do final do século XIX, aliando simplicidade com expressividade.O Agnus Dei apresenta um motivo expressivo recorrente nos violinos, extraído do Ofício 1816, obra gêmea deste Réquiem. O Lux eterna, sóbrio e tranqüilo, termina com um grande uníssono de vozes e cordas, como um último grito de agonia ou de libertação.

Carlos Alberto Figueiredo é regente do Coro de Câmera Pro-Arte do Rio de Janeiro e
professor de regência coral e análise musical na Universidade Federal do Estado do
Rio de Janeiro, com pesquisa voltada para a obra de José Maurício Nunes Garcia.

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