Abertura Coriolano, Op.62

21/08/2008 às 11:39

Ludwig van Beethoven

John Neschling regente
Osesp
Gravada em abril de 2000 na Sala São Paulo
Lançado em CD pelo selo Biscoito Fino

Beethoven precisava de uma nova abertura de concerto para uma apresentação pública que planejava para 1807. A música incidental composta para o balé As Criaturas de Prometeu, que utilizara anteriormente para esse fim, estava desgastada pelo uso e, além do mais, seguia o estilo clássico do qual ele se distanciava rapidamente.

A história de Coriolano, o herói de Plutarco, que Shakespeare transformara numa famosa tragédia, forneceu a inspiração de que Beethoven precisava para compor a nova abertura. Porém não foi na tragédia de Shakespeare que Beethoven se baseou, e sim no drama sobre o mesmo tema que o dramaturgo austríaco Heinrich von Collin havia recentemente criado.

Beethoven encontrou na tragédia de Coriolano um farto material ideológico de ressonância com a retórica heróica da sua música deste período. Na busca de renovação estilística, Beethoven havia se deixado influenciar pelo estilo heróico e grandiloqüente da música praticada na França por Gossec, Grétry, Kreutzer, Méhul e principalmente Cherubini. A afinidade da Abertura Coriolano com a música parisiense do período pós-revolução francesa foi reconhecida já no tempo de Beethoven pelo famoso crítico E.T.A. Hoffmann que apontou a influência de Cherubini nos materiais usados nesta obra.

Na Abertura Coriolano, diferentemente de outras obras do período heróico de Beethoven, como a Abertura Egmont e a Quinta Sinfonia, o desfecho não é redentor. O tom desafiador do personagem e sua energia passional, expressos ao longo da obra por uma inexorável propulsão rítmica, acabam cedendo lugar no final às conotações de morte e pesar. Isso é expresso na coda pela fragmentação progressiva do material temático e pela dissolução do impulso rítmico, indicando o fim trágico do protagonista.

É interessante observar que já na Cantata para a Morte de Joseph II, obra de ocasião para as exéquias do imperador, escrita na juventude em Bonn, Beethoven criara um certo inventário de figuras musicais que, desde então, passaram a representar para ele o sentimento de morte. Elas reaparecem tanto na Abertura Coriolano quanto na marcha fúnebre da Sinfonia Eroica e na Abertura Egmont.

A Abertura Coriolano acabou sendo estreada naquele mesmo ano de 1807, num concerto no palácio de um de seus patronos, o Príncipe Lobkowitz. Beethoven ainda fez figurar no mesmo programa a Quarta Sinfonia e o Concerto nº 4 para Piano e Orquestra, dando uma demonstração inequívoca da impressionante energia criativa que o animava naquele período.

 Rodolfo Coelho de Souza é compositor, doutor em composição pela University of Texas at Austin e professor da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto.

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