Episódio Sinfônico

03/12/2007 às 13:49

Francisco Braga

John Neschling regente
Osesp
Gravado ao vivo em fevereiro de 2004 na Sala São Paulo

A obra Episódio sinfônico, escrita em 1898 quando o compositor residia na Alemanha, foi inspirada num poema de um dos representantes da poesia do período romântico brasileiro, Gonçalves Dias:

“Só tu, Senhor, só tu no meu deserto
Escutas minha voz que te suplica;
Só tu, nutres minha alma de esperança;
Só tu, oh meu Senhor, em mim derramas
Torrentes de harmonia, que me abrasam.
Qual órgão, que ressoa mavioso,
Quando segura mão lhe oprime as teclas,
Assim minha alma quando a ti se achega
Hinos de ardente amor disfere grata:
E, quando mais serena, ainda conserva
E flúvios deste canto, que me guia
No caminho da vida áspero e duro.
Assim por muito tempo reboando
Vão no recinto do sagrado templo
Sons, que o órgão soltou, que o ouvido escuta”.

Braga escreve uma progressão de cinco longos acordes, que se abrem em movimento contrário entre a flauta e o contrabaixo, utilizando a orquestra como se fosse um órgão numa seqüência harmônica. Na realidade esse encadeamento é uma síntese de toda a obra e já contém metade do motivo melódico principal, alargado nesta introdução de seis compassos.

Logo a seguir um violoncelo solo, acompanhado pela harpa e por acordes formados pelos clarinetes e fagotes, expõe o tema: uma melodia simples iniciada numa escala ascendente de sol maior, que é repetida por todos os violoncelos quando ganha contrapontos nas madeiras e nos demais naipes de cordas.

A melodia volta a aparecer diversas vezes, dividida em pequenos motivos distribuídos ora nos clarinetes, ora nos violinos, ora nas flautas ou nas trompas, ora nos oboés ou nos fagotes.

O violoncelo solo volta, agora reforçado pelos timbres do corne-inglês, dos fagotes e dos clarinetes e segue com pequenas alternâncias com o primeiro clarinete, até que ‘resolve’ nos mesmos cinco longos acordes da introdução.

É uma obra curta, com pinceladas wagnerianas, simples e compacta, quase miniaturista, como uma oração, um breve desabafo a um velho conhecido, para quem não há necessidade de muitas palavras para se fazer entender.

Maria Elisa Peretti Pasqualini é musicóloga, coordenadora do Centro de Documentação Musical da Osesp e professora de contraponto, harmonia e regência coral.

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