I Allegro con brio
III Allegro
IV Allegro
John Neschling regente
Osesp
Gravado em setembro de 2005 na Sala São Paulo
Lançado em CD pelo selo Biscoito Fino
Beethoven começou a escrever sua Quinta Sinfonia em 1805, imediatamente após ter terminado a Terceira. Entre as duas há uma óbvia afinidade expressiva, um sentimento de exaltação impossível de definir em palavras, mas usualmente descrito pelo termo ‘heróico’ que, por isso mesmo, Beethoven associou à Terceira.
A idéia central da Quinta é tão poderosa e avassaladora que é difícil entender como Beethoven conseguiu interromper a composição e deixá-la de lado durante todo o ano de 1806, para só retomá-la em 1807. Felizmente, no início de 1808 a obra estava pronta e foi dedicada ao conde Razumovsky e ao príncipe Lobkowitz, dois dos principais mecenas de Beethoven na fase intermediária de sua carreira.
O que teria levado Beethoven a interromper a composição da Quinta? Não temos informações concretas mas podemos fazer algumas especulações. A primeira constatação é que Beethoven parou a Quinta para escrever a Quarta, uma obra mais leve e bem humorada. Então, parece que houve alguma interferência externa, algum evento na vida de Beethoven que distraiu sua atenção. A mais óbvia possibilidade é seu envolvimento afetivo com a condessa Theresa Brunswick que ocorreu justamente naquele ano. O compromisso entre os dois parece ter afastado Beethoven dos sentimentos dramáticos da Quinta e induzido a uma fase de bons humores, da qual a Quarta seria testemunha. Uma outra possibilidade é que Beethoven precisava compor suas sinfonias aos pares, com climas expressivos alternados: uma dramática alternada com uma mais leve. Simplesmente seria assim que sua cabeça funcionava, como se cada sinfonia representasse o contraste entre o primeiro e o segundo temas de uma vasta obra em forma de sonata, independentemente do que estivesse ocorrendo à sua volta.
É ainda possível que Beethoven tivesse realmente hesitado sobre os caminhos que a Quinta o estariam levando. Essa sinfonia nos parece hoje tão familiar que não nos damos conta da novidade que ela representou no seu tempo. A Quinta Sinfonia revoluciona o modo como os temas deste gênero eram concebidos. A fórmula desenvolvida por Haydn, que Beethoven adota com poucas variações nas obras anteriores, é que uma sinfonia devia começar com uma introdução lenta, criando uma expectativa para a apresentação do primeiro tema, que aparecia então, quase sempre, na forma de uma melodia, mais ou menos extensa, mais ou menos cantabile, mas que deveria deixar uma marca na memória para que pudesse ser desenvolvida posteriormente. Uma tradição alternativa, oriunda da tradição operística, recomendava que a sinfonia começasse com uma barulhenta fanfarra de abertura para que o público prestasse atenção à entrada do primeiro tema.
A Quinta de Beethoven rompe com essas convenções. Não há introdução lenta, nem fanfarra de abertura. Começamos in media res, em plena ação dramática, com a fanfarra de abertura transfigurada em puro pathos, num gesto que cumpre a dupla função de brevíssima introdução e de material temático para o desenvolvimento de toda a sinfonia.
Essa idéia de conformar a Sinfonia às exigências do drama não vem da tradição de Haydn, para quem a forma era uma questão de equilíbrio arquitetônico. A idéia aparece pela primeira vez nas últimas sinfonias de Mozart. Beethoven levou esse princípio mais longe do que Mozart teria sonhado. Lembremos que Beethoven era um leitor assíduo da dramaturgia teatral. Suas diversas aberturas programáticas testemunham esse interesse. Shakespeare era um dos seus autores favoritos. Podemos até dizer que o tema inicial da Quinta está para a Música, assim como o monólogo “Ser ou não Ser” do Hamlet de Shakespeare está para o Teatro.
O motivo inicial da Quinta é provavelmente a idéia musical mais conhecida de toda a história da música. A despeito das anedotas que já se contaram a seu respeito, como a história das batidas do destino na porta do compositor, a sua teatralidade é abstrata e não há nenhum propósito em vinculá-la a significados extra-musicais que teriam eventualmente passado pela mente do compositor quando a concebeu. A beleza dessa poderosa interjeição musical cresce na proporção direta de sua ambigüidade. É curioso notar que, apesar de veemente, a orquestração em uníssono abstém-se de usar todo o potencial sonoro que o compositor colocou à sua disposição. Nesta obra Beethoven utiliza pela primeira vez três trombones em suas sinfonias. Não obstante o poder desses instrumentos, Beethoven escolhe usar apenas cordas e clarinetes na abertura, reservando os trombones para um clímax posterior.
Mas o verdadeiro ‘ovo de Colombo’ de Beethoven foi perceber que esse motivo conciso, uma vez submetido a sucessivas transformações, prestar-se-ia à construção de um discurso musical inteiramente baseado na sua repetição obsessiva. É plausível dizer que tudo nessa Sinfonia, em última instância, pode ser reduzido ao motivo gerador. Realiza-se aqui, em sua plenitude, o ideal de Haydn da organicidade do discurso musical que preconizava que os elementos de uma música devessem ser gerados a partir de uma célula-mater.
Aliás, não só o primeiro movimento é construído a partir do motivo inicial, mas, a rigor, todos os quatro. Embora o impacto inicial do primeiro movimento fique indelevelmente fixado na nossa memória, o ponto culminante da obra está no último, que também utiliza uma derivação ternária do ritmo original. Dentre os quatro movimentos, é o mais longo e o mais elaborado, o que apresenta as sonoridades mais poderosas.
Schumann foi o primeiro a reconhecer na Quinta de Beethoven a influência da música francesa. Em Paris, no período posterior à revolução, as manifestações musicais em praça pública, com forte conotação política, criaram um novo estilo musical, caracterizado pelas marchas para fanfarras de sopro e percussão. Esse novo estilo ganhou forma na ópera francesa pós-revolucionária, chamada de ópera de resgate, a qual retrata a jornada do herói romântico das trevas para a luz. Esse modelo narrativo, de drama que acaba em happy-end, foi inicialmente usada nas obras de Méhul e Cherubini, as quais, por sua vez, tiveram forte influência sobre Beethoven.
A Quinta Sinfonia, assim como a Terceira anteriormente, é baseada nesse paradigma. O primeiro movimento em dó menor expressa o sentimento de conflito e luta, enquanto os seguintes progridem gradativamente para sua superação, culminando no sentimento de exultação e vitória do final em Dó maior.
Rodolfo Coelho de Souza é compositor, doutor em composição pela University of Texas at Austin e professor da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto.




(61 votos, média: 4,85 de 5)

9 - Luzia Lobato diz:
Fantástica! A execução, a regência, tudo absolutamente perfeito. Parabéns!
28/04/2010 14:45
8 - Marco Antonio Silva dos Santos diz:
Eu nunca tive o privilegio de assistir uma apresentação da OSESP mas só de escutar as musicas executadas pela osesp me sinto realizado e ao mesmo tempo indignado por saber que tem pessoas que não conhece essa dadiva de Deus e nos brasileiros somos privilegiados em termos a OSESP como o nosso orgulho e grandeza da musica em nosso pais
23/07/2008 15:36
7 - Dirceu Tostes Fernandes diz:
A execução da Sinfonia No. 5 em Dó Menor, Op.67, de Beethoven, exige alta qualidade orquestral e uma regência primorosa, e nada disso faltou à OSESP! Estou deveras entusiasmado com a inclusão dessa magnífica orquestra no Podcast. Faço votos para que a direção da OSESP continue a nos premiar com mais gravações nesse nível.
Abraços.
31/12/2007 10:05
6 - Luiz do Nascimento Pereira Jr diz:
Um trabalho com a Cara, Qualidade e “Tamanho” da OSESP. Parabéns aos seus idealizadores e mantenedores !
27/12/2007 7:14
5 - Larissa de Cássia Sartori Martines diz:
Magnifico!Gostei bastante!
Deixo meus parabéns pela iniciativa e agradecimentos pela oportunidade!
Sim…,o povo brasileiro precisa realmente da boa música.Uma que transmita tantos sentimentos como a Clássica é capaz de proporcionar…
11/12/2007 21:47
4 - Danillo diz:
Parabens, pela nobre iniciativa
e viva a boa musica
07/12/2007 23:10
3 - Cesar Luiz da Silva Pereira diz:
Alvíssaras. Com que alegria descobri o serviço de podcast da OSESP. Parabéns pela iniciativa. Divulgarei o máximo possível para que maior número de pessoas possam usufruir desse instrumento cultural de elogiável qualidade. Aguardo, ansiosamente, incremento de peças sinfônicas para deleite via web. Cumprimentos e agradecimentos pela oportunidade.
05/12/2007 18:54
2 - José Augusto diz:
Parabéns pela iniciativa, pessoal.
Prosperidade aqui!
05/12/2007 11:00
1 - Ricardo diz:
Sensacional!
Belo trabalho de divulgação e bela iniciativa de distribuir um pouco de cultura.
Parabéns!
05/12/2007 10:56