Camargo Guarnieri
I Maestoso
IV Scherzando
V Agitado
VI Alegre
VII Valsa
VIII Saudoso
IX Humorístico
John Neschling regente
Osesp
Gravado ao vivo em abril de 2007 na Sala São Paulo
Camargo Guarnieri nasce em 1907, em Tietê, cidade do interior do Estado de São Paulo, e bem jovem passa a figurar nos repertórios das salas de concerto. Os críticos logo percebem que a música desse paulista não se deixa dominar pelo exotismo evidente encontrado em ritmos de dança e nos instrumentos populares, como bem observou seu contemporâneo e amigo Aaron Copland:
“O que mais me agrada na sua música é a sua expressão emotiva sadia – é uma exposição sincera do que um homem sente… Sabe como modelar uma forma, como orquestrar bem, como tratar eficientemente o baixo. O que atrai na música de Guarnieri é o seu calor e a imaginação que vibra com uma sensibilidade profundamente brasileira. É, na sua expressão mais apurada, a música de um continente ‘novo’, cheia de sabor e de frescura”.
De fato, Camargo Guarnieri nutre grande afeição pela polifonia e, talvez por esse motivo, já maduro vai para a França aperfeiçoar-se com Charles Koechlin, lá permanecendo entre 1938 e 1939. Estimulado por esse importante e breve contato passa a compor sinfonias alcançando renome e premiações importantes com o Concerto nº 1 para violino (1942), as Sinfonias de nº 1 (1944) e de nº 2 (1946), e o Choro para piano e orquestra (1956), para citarmos apenas algumas obras.
Em 1957 é provável que o compositor tenha se lembrado novamente de seu mestre francês –músico polifacetado que era fascinado pelo cinema– ao aceitar a encomenda para fazer a ilustração musical do filme Rebelião em Vila Rica, origem da Suíte que será composta no ano seguinte. Os irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira assinam o roteiro e dirigem o filme cujo enredo interpela os sentimentos básicos do ser humano como amor, ódio, medo, felicidade e esperança. Os autores, porém, falam sobre política e, para tanto, estabelecem uma analogia com um fato histórico do Brasil do século XVIII quando o povo que se concentrava principalmente na cidade de Vila Rica –hoje conhecida como Ouro Preto– clamava por liberdade. Os personagens daquela rebelião que culminou em morte e prisões emprestam seus nomes para os irmãos Santos Pereira, embora a trama transcorra no ano de 1945 com estudantes universitários.
A música de Camargo Guarnieri é decisiva na ilustração das cenas que narram a vida da pequena cidade onde os alunos se revoltam com a mudança de orientação da Escola, por determinação do Governo, defendendo o Diretor substituído e conclamando o povo contra o despotismo dos administradores. Há romances, brincadeiras, traição e fatalidade que permeiam as vidas daqueles jovens e evocam fatos verídicos do passado.
Concluído o trabalho, o compositor aproveita trechos inteiros da trilha sonora, reorquestra alguns e inverte certas partes para alcançar, no ano seguinte, o formato da Suíte Vila Rica onde constarão dois títulos de ritmos populares dançados cabendo aos outros segmentos da obra as denominações dos afetos que evocavam no filme. Entre as principais diferenças da trilha sonora com a obra de 1958 está o deslocamento do Maestoso que encerra o filme para a abertura da Suíte. Originalmente a música servira para homenagear o herói assassinado pela polícia. Por sua vez, o Andantino, segunda peça da Suíte, fora usado para a abertura do filme, momento em que o público acompanha as primeiras tomadas da cidade e os créditos da filmagem. Ao Misterioso, como o nome sugere, tinham sido justapostas certas cenas de tensão, como quando os alunos planejam criar um ambiente de pânico na população, ou quando um dos moços do grupo -o que trai seus amigos- invade a Escola durante a noite. E encadeando as peças independentemente das funções que cumpriam, Guarnieri contrasta o Misterioso com o solo de flauta que percorre todo o Scherzando, melodia que conferiu leveza ao momento em que o herói reencontra sua amada após breve ausência da cidade.
As nove melodias folclóricas fornecidas pelos autores do filme foram harmonizadas pelo compositor para serem cantadas, com acompanhamento de violão ou em coro, pelo grupo de estudantes nas ocasiões de serenatas e festas. Delas, apenas a conhecida como Tim, tim, oi lá lá será aproveitada na Suíte, no Agitado, onde o tema é exposto pelo oboé e, em seguida, por flautas e clarinetas. São estes os instrumentos que dialogam com o violino, durante o Alegre, com o mesmo espírito festivo que fora utilizado no filme para ambientar uma cena externa onde a musa do poeta escorrega e ele vem socorrê-la. É esta jovem que em outra situação executa ao piano a Valsa cujo tema, orquestrado, faz a ligação de certas passagens da história. Além de incluir a versão orquestral na Suíte, tempos depois Camargo Guarnieri transformou a Valsa em peça de concerto dedicando-a a Vera Sílvia, sua esposa.
O tema do Saudoso, na clarineta ou nos violinos, é ouvido durante o enredo quando os alunos são inteirados do afastamento do professor do qual tanto gostam da direção da Faculdade e, adiante, ao saberem quem o substituirá na função. Contrastante, o Humorístico é, de fato, a ilustração musical dos trechos mais descontraídos, enquanto os alunos rebeldes retiram seus pertences da república onde residiam e passam a morar na rua. A Suíte conclui com um Baião, dança característica do nordeste do Brasil, curiosamente empregada pelos autores do roteiro numa situação familiar, formal, onde mãe e filha aconselham o professor execrado pelos alunos a abandonar a briga. Quando a partitura ficou pronta Camargo Guarnieri dedicou-a ao Ministro da Educação e Cultura, Clóvis Salgado, para quem trabalhava desde 1956 como Assessor Artístico.
Flávia Camargo Toni, curadora do acervo Camargo Guarnieri no Instituto de Estudos Brasileiros da USP.




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11 - Pedro diz:
Divino! Ótima iniciativa da OSESP.
22/06/2009 14:23
10 - Gaetana Ricco diz:
Que saudades.
15/02/2008 18:59
9 - Gaetana Ricco diz:
Querida Osesp. Tudo que vem de você é uma dádiva, exceto a grande saudade de uma ausência tão prolongada.
15/02/2008 18:58
8 - Cledson Vargas Casadio diz:
parabens
29/12/2007 8:26
7 - Fábio diz:
EM TEMPO: uma sugestão: que tal Villa Lobos em podcast da OSESP hein???
12/12/2007 9:20
6 - Fábio diz:
Gostaria de parabenizar a iniciativa de democratizar cultura, principalmente um gênero que sempre foi tido como elitista e de acesso restrito às classes mais abastadas da sociedade.
PARABÉNS OSESP!!!
Que este passo sirva de exemplos para as outras grandes sinfônicas brasileiras, como a Sinfônica Petrobras e a Sinfônica Nacional (UFF-Niterói).
Sucesso e parabéns!
12/12/2007 9:18
5 - Camylla diz:
é muito bom achar a Suíte aqui no Site… ela é linda!!!! TAMBÉM QUERO MAIS…
08/12/2007 9:40
4 - Gabriel diz:
Finalmente!!!Nem estou acreditando…..Tanto tempo procurando gravações da OSESP
para fazer download e finalmente consigo acgar e quem diria no próprio site da OSESP!!!!
Muito boa iniciativa!!!!
04/12/2007 19:18
3 - André Almeida diz:
Essa iniciativa realmente me surpreendeu!
24/11/2007 1:05
2 - Valdir diz:
Em tempos de culto à ignorância e ao paternalismo, surge uma lótus na internet. Quixá se torne um campo de girassóis. Parabéns! Prossigam distribuindo cultura.
23/11/2007 20:10
1 - Carolina diz:
Grande iniciativa!!
Já estava na hora de termos a OSESP também em casa. Queremos mais.
15/11/2007 13:55