Conheça os Projetos da Osesp e suas realizações em 2009.
Luciano Gallet
Victor Hugo Toro regente
Osesp
Gravada em dezembro de 2007 na Sala São Paulo.

Foto: Elder Buck
Em seu livro inacabado intitulado O Banquete, publicado postumamente em 1978, Mário de Andrade dissecava a situação da música brasileira. O banquete realizava-se na residência de uma dama da sociedade paulista, durante a década de 1940. Um dos convidados era o proeminente compositor Janjão, o qual, dentre outras frases lapidares, afirmava o seguinte: “A música brasileira atravessa um período de descoberta e exploração. Desde 1918 que a música brasileira me preocupa. Data daquela época o meu Tango-batuque, de forma embrionária ainda cheia de influências alheias e de realização deficiente.”
Heitor Villa-Lobos
Naomi Munakata regente
Coro da Osesp
Gravada em janeiro de 2001.

Foto: Alexandre Felix
Xangô é um canto-fetiche de macumba escrito em 1919, com texto de autor desconhecido. É uma das Canções Típicas Brasileiras de Villa-Lobos e integra o segundo volume de Canto Orfeônico, coletânea de marchas, canções folclóricas e hinos, publicada em 1950 e destinada à educação musical e à formação cívico-moral. A primeira execução desta obra foi em 1930, em Paris, sob regência de Villa-Lobos.
Giuseppe Verdi
John Neschling regente
Coro da Osesp
Gravada em setembro de 2001 na Sala São Paulo.

Foto: Alexandre Felix
Os fragorosos aplausos com que o público do Teatro Alla Scala de Milão consagrou, a 9 de março de 1842, o Coro dos Escravos Hebreus durante a estreia da ópera Nabucco asseguraram a seu autor, Giuseppe Verdi (1813-1901), um lugar definitivo no panteão dos grandes compositores italianos. Com muitas liberdades históricas, o argumento de Nabucco fala dos judeus arrastados em cativeiro para a Babilônia sob o jugo de Nabucodonosor. Quando o coro lançou os primeiros acordes daquela melodia tão simples quanto sublime, cantando as palavras Va pensiero sull’ali dorate (Vai pensamento, sobre asas douradas), uma espécie de fagulha espiritual percorreu a plateia.
A Itália atravessava um momento histórico crucial. Não existia ainda como nação, era fragmentada em vários estados. A Lombardia, região da qual Milão era a capital, encontrava-se sob a férrea dominação do Império Austríaco. O anseio popular pela libertação, que logo mais se refletiria nas árduas batalhas do risorgimento, o movimento pela unificação italiana, era forte e genuíno. O público que lotava a sala do velho teatro naquela noite mágica identificou imediatamente os sofrimentos dos judeus, cuja pátria fora invadida e dominada pelos babilônios, com a humilhação que os milaneses eram obrigados a padecer sob os austríacos. A partir desta metáfora, Va Pensiero tornou-se o símbolo musical do risorgimento e é, ainda hoje, o hino da liberdade de todos os povos.
Trecho inicial do ensaio A Presença Judaica na Ópera, publicado no livro Contos de Óperas e Cantos, de Sergio Casoy (Editora ALGOL, 2009), gentilmente cedido pelo autor.
Richard Wagner
John Neschling regente
Osesp
Gravada no concerto ao ar livre de Fortaleza, durante a Turnê Brasil 2008.
Wagner começou a conceber Os Mestres Cantores de Nürnberg em 1845, como um apêndice cômico a Tannhäuser. A inspiração era o teatro grego, no qual uma peça satírica seguia-se a uma tragédia. E foi no verão do mesmo ano, em Marienbad, logo depois de terminar a composição de Tannhäuser, que o compositor começou a esboçar o libreto dos Mestres Cantores. Contudo, a música só o ocupou 16 anos mais tarde: em 1861, em uma viagem de trem entre Veneza e Viena, Wagner iniciou a composição do Prelúdio da ópera em três atos, que só viria a estrear em 1868, em Munique.
Ambientada em Nürnberg, em meados do século XVI, a ópera narra a luta do jovem cavaleiro Walther von Stolzing para ganhar a mão de Eva, sua amada, em um concurso de canto, com o apoio do sapateiro Hans Sachs e a oposição de Sixtus Beckmesser, personagem que representa o apego às regras estéticas do passado e que é empregado pelo compositor para satirizar o principal crítico musical antiwagneriano do século XIX, Eduard Hanslick.
Wolfgang Amadeus Mozart
Arcádio Minczuk oboé
Israel Silas Muniz oboé
Sérgio Burgani clarinete
Daniel Rosas clarinete
José Arion Liñarez fagote
Francisco Formiga fagote
Dante Yenque trompa
Luciano Pereira do Amaral trompa
Gravada em março de 2006 na Sala São Paulo.
A serenata tomou forma no século XVI, como uma canção interpretada por um amante à janela de sua amada; evoluiu, na Salzburg do século XVIII, para uma forma de música ao ar livre, reunindo instrumentos que poderiam ser tocados enquanto se caminhava. Leopold, o pai de Mozart, e Michael, irmão de Joseph Haydn, foram alguns dos compositores que escreveram muitas serenatas em Salzburg. Mozart mesmo, quando se mudou para Viena em 1781, adaptou várias de suas serenatas —que apresentavam cinco e até mais movimentos de danças entremeados com movimentos convencionais como allegro e adagio—, transformando-as em sinfonias.
Esta Serenata KV 375 para instrumentos de sopro surgiu como sexteto em outubro de 1781, com pares de clarinetes, fagotes e trompas; e em julho do ano seguinte como octeto, com o acréscimo de dois oboés. Só que desta vez Mozart levou o gênero a sério, como confessa numa carta ao pai: “Já estava tirando a roupa para deitar quando fui surpreendido com um grupo de músicos em minha janela tocando uma de minhas serenatas. Como ela foi escrita para mostrar à senhora Van Strack como são as minhas composições, eu a escrevi com intenção um pouco mais séria”. Ele não a chamou de Nachtmusik, ou música noturna, em 1781, mas quando acrescentou os oboés usou a expressão.
Giuseppe Verdi
John Neschling regente
Osesp
Gravada em setembro de 2001 na Sala São Paulo.
Verdi preferia curtos prelúdios, ou a entrada direta na ação, às longas aberturas. Mas deixou duas páginas orquestrais muito vívidas, sempre presentes nos programas de concerto sinfônicos: as aberturas de Forza del Destino e de I Vespri siciliani. Como regra, elas incorporam temas expressivos que surgirão no decorrer da ópera. A abertura de I Vespri siciliani (1855) é uma composição orquestral inteiramente concebida no jogo de contrastes muito caro a Verdi, destinado a atirar o ouvinte em situações emocionais que se alternam entre o repouso, a agitação, a paz, a angústia.
Jorge Coli é professor na área de História da Arte e da Cultura da Unicamp — Universidade Estadual de Campinas.
Gabriel Fauré
John Neschling regente
Osesp
Gravada em novembro de 2006 na Sala São Paulo.

Foto: Ana Fuccia
Fauré possui hoje a mesma reputação que granjeou em vida: de um discreto gênio musical, capaz de colocar em movimento uma silenciosa revolução que conduziria os músicos franceses à conquista da identidade. Fauré esteve entre os primeiros a valorizar a tradição poética simbolista, que se fixava em seus anos de juventude, e a dar a ela uma feição sonora condizente; lançou seus ouvidos às harmonias wagnerianas, mas passou-as por um filtro que lhes neutralizavam o pathos e o excesso. Associou-as aos materiais arcaizantes da música antiga religiosa, que se tornariam parte das alternativas experimentais e neoclássicas da composição musical do século XX, e acrescentou à sua linguagem, em primeira mão, estranhezas atonais como a escala de tons inteiros, entre outras. Finalmente, ele deixa que tudo transpareça sutilmente sob a moldura de um dos mais elegantes meios de condução melódica de que se tem notícia na história musical. Estes ingredientes deram margem a derivações que marcaram o repertório erudito de forma mais contundente, sobretudo a música de seu amigo e discípulo Maurice Ravel.
Lili Boulanger
Naomi Munakata regente
Coro da Osesp
Gravada em novembro de 2006 na Sala São Paulo.

Naomi Munakata e o Coro da Osesp (Foto: Ana Fuccia)
O Prêmio de Roma (Prix de Rome), que existe até hoje na França, é uma instituição de grande prestígio para os artistas. No passado, depois de um concurso muito severo, jovens estudantes em artes recebiam uma bolsa para passar longo tempo hospedados e estudando na Villa Medicis, Academia da França em Roma. Era a consagração de um talento excepcional. Na música, Berlioz e Debussy o obtiveram. Em 1913, o concurso era vencido pela primeira vez por mulher: a compositora Lili Boulanger. Ela nascera numa família de músicos. Tinha uma irmã, Nádia, que se tornaria a mais célebre professora de composição, direção de orquestra e de piano do século XX e que formou, entre outros, Leonard Bernstein, Aaron Copland, Philip Glass, Dinu Lipatti, Astor Piazzolla e o grande brasileiro Almeida Prado. Lili, porém, não fora feita para ensinar.
Antonio Carlos Gomes
John Neschling regente
Gravada no concerto ao ar livre de Fortaleza, durante a Turnê Brasil 2008.

Foto: Elder Buck
Um dos 25 filhos do regente da banda de Campinas – interior de São Paulo -, Antonio Carlos Gomes (Campinas, 11 de julho de 1839 – Belém, 16 de setembro de 1896) começou os estudos muito cedo, estreando, aos 18, sua primeira missa. Contra a vontade do pai, partiu para o Conservatório Imperial no Rio de Janeiro e, aos 21, fundou a Ópera Nacional, onde dirigiu a orquestra e estreou A Noite no Castelo. Tomou contato mais íntimo com a obra de Verdi, Rossini, Donizetti e Wagner, e, dois anos mais tarde, Joana de Flandres garantiu-lhe uma bolsa do governo brasileiro para estudar na Itália. Após ter algumas pequenas peças apresentadas em Milão, aos 29, viu triunfar Il Guarany no La Scala. Alcançou renome internacional e compôs, nos anos seguintes, Fosca e Salvator Rosa. Durante toda a vida escreveu canções e modinhas, mas foi sobretudo um compositor operístico. É autor, ainda, de Maria Tudor, Lo Schiavo, Condor e do oratório Colombo. De volta ao Brasil, aceitou do governo republicano o cargo de Diretor do Conservatório de Belém, onde faleceu meses depois.
M. Camargo Guarnieri
Wagner Polistchuk regente
Orquestra de Cordas (formação com músicos da Osesp)
Gravada em março de 2009 na Sala São Paulo.

Foto: Desirée Furoni
Em 1943, Guarnieri admirava-se com a importância que o músico tinha nos EUA, comparado a um “médico do espírito”, provedor da “higiene espiritual” e livre das “mesquinhas preocupações de ordem financeira” para se “entregar ao estudo e desenvolver suas faculdades”. Lá, as iniciativas “grandiosas” não vinham do governo, mas de milionários que, “sem medo do inferno”, davam seu dinheiro para a fundação de conservatórios, em vez de comprar indulgências. E não havia cidade que não possuísse uma ou mais orquestras, sempre orgulho da população. Como aconteceu na Europa do século XVIII, quando comerciantes de Leipzig fundaram a Orquestra da Gewandhaus —Orquestra da Casa de Tecidos—, regida por Mendelssohn, Schumann, Brahms e tantos outros. Leia mais…